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A construção de uma economia verde e inclusiva, capaz de produzir riqueza e distribuir renda de maneira mais eficiente em termos ambientais, é um desafio crucial para o futuro da humanidade. Essa é uma tarefa difícil, complexa e desafiadora, e se não tivermos os recursos financeiros necessários para tirá-la do papel, ela será impossível.

Por isso, cada vez mais, investidores e instituições financeiras estão se atentando para os desafios socioambientais contemporâneos e buscando caminhos mais sustentáveis para a geração de riqueza, nos quais o retorno não se resume apenas aos dividendos e lucros, mas também aos impactos positivos de determinado investimento sobre a sociedade como um todo.

Catalisar a preocupação e a atuação do setor financeiro com os desafios socioambientais contemporâneos e as pautas da sustentabilidade vem sendo uma frente de trabalho importante do FGVces nos últimos anos, com o desenvolvimento de importantes estudos e ferramentas técnicas para orientar a ação de investidores e gestores públicos e privados em prol do desenvolvimento sustentável.

FINANCIAMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Entre as atuações do FGVces no tema de Finanças, destacam-se a identificação e a sistematização dos caminhos para o financiamento de projetos alinhados com a proposta do desenvolvimento sustentável no Brasil. Desde 2015, em parceria com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), vem sendo desenvolvido um trabalho de análise sobre os caminhos possíveis para alavancar a transição para uma economia verde no País, por meio dos recursos intermediados pelo Sistema Financeiro Nacional (SFN).

Dos estudos desenvolvidos pela parceria em 2017, dois analisam aspectos importantes do financiamento de setores e atividades econômicas relevantes para a construção de uma economia de baixo carbono. A publicação Financiamento para Energia Solar Fotovoltaica aprofunda o conteúdo do relatório Edificações Sustentáveis e Eficiência Energética (2016), que elencou alguns desafios importantes do setor de energia solar no Brasil no que diz respeito ao seu financiamento, como a padronização do modelo de negócio, de documentações e contratos de financiamento, melhorias nas garantias oferecidas, além da certificação de implementações e instalações e criação de bases de dados com histórico de desempenho de projetos. Esse trabalho contou com o apoio da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Foto: Blackdot Energy

Para tanto, a equipe do FGVces explorou experiências internacionais no setor, especialmente os casos da Alemanha, China, Estados Unidos, Japão e Reino Unido, e levantou o potencial do mercado brasileiro, as legislações nacionais e (em alguns casos) estaduais e os modelos de negócio encontrados no Brasil. A identificação de barreiras relacionada ao financiamento para expansão da energia solar fotovoltaica e o teste sobre a viabilidade financeira dos diferentes modelos de negócio hoje existentes no Brasil também foram outros pontos analisados no estudo. A publicação final será lançada entre o 1º e o 2º semestres de 2018.

O segundo estudo desenvolvido em 2017 foi o de Financiamento para Recomposição Florestal com Exploração Econômica da Reserva Legal, que parte de outra publicação lançada anteriormente no âmbito da parceria, Financiamento da Recomposição Florestal (2016).

Esta publicação se baseia em modelos econômico-financeiros para avaliar o impacto de atividades de recomposição florestal no fluxo de caixa das atividades produtivas, considerando suas respectivas rentabilidades. Além da modelagem, a equipe do FGVces realizou visitas a campo para avaliar, em conjunto com produtores rurais, a aplicabilidade e a viabilidade econômico-financeira dos modelos de recomposição sugeridos. A pesquisa também envolveu o diálogo com membros da Febraban participantes do Grupo de Trabalho (GT) organizado para esse projeto e da Comissão Setorial de Responsabilidade Social e Sustentabilidade. O estudo será publicado ao longo do 1º semestre de 2018.

Além dos estudos com a Febraban, o FGVces também iniciou em 2017 um levantamento sobre o volume de recursos financeiros destinados à mobilidade urbana no País. O projeto Financiamento Público para Mobilidade Urbana no Brasil, desenvolvido em parceria com o OAK Foundation, o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e o Instituto Clima e Sociedade (ICS), explora o período 2006-2016 e analisa informações dos governos municipais das regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, além dos governos dos dois Estados e da União.

A proposta desse estudo é aproximar duas agendas relevantes da gestão pública no Brasil – a contabilidade pública, que lida com desafios como a transparência e a sistematização de dados, e a mobilidade urbana, uma questão crucial para o poder público na medida em que as cidades vão se expandindo e concentrando cada vez mais pessoas.

Para tanto, foram mapeados os fluxos de recursos financeiros para aspectos de mobilidade urbana, incluindo infraestrutura, veículos, benefícios fiscais, regulações, entre outros, além das diferentes atribuições e o fluxo de investimento do governo federal para os municípios e os principais desafios para eficiência e acesso ao recurso financeiro. Esse estudo deve ser finalizado em meados de 2018.

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GESTÃO DE RISCO DE DESMATAMENTO EM INVESTIMENTOS EM CADEIAS PRODUTIVAS

Historicamente, o agronegócio desempenha um papel fundamental para a economia brasileira, com grande representatividade no total de riquezas produzidas no País desde o período colonial. Em 2016, as atividades agropecuárias foram responsáveis pela geração de 23,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e por mais de 46% do total das exportações nacionais.

Ao mesmo tempo em que contribui de modo significativo para a economia brasileira, o agronegócio também exerce pressão intensa sobre os recursos naturais do País. Entre 2007 e 2014, 25% do avanço da soja no Cerrado ocorreu sobre área de mata nativa; na região do Matopiba (que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), 62% do acréscimo de área cultivada por soja avançou sobre terreno antes ocupado por vegetação natural.

Esse contexto aponta que persistem sérios riscos associados ao desmatamento em cadeias produtivas do agronegócio no Brasil (particularmente as de soja, carne bovina, e papel e celulose), que podem gerar danos legais, reputacionais, comerciais e operacionais para as empresas do setor e problemas similares para as instituições financeiras que apoiam a operação dessas cadeias. Em 2017, a agenda de riscos associados a desmatamento representou uma frente importante do trabalho do FGVces no tema de finanças.

Elaborado no contexto da parceria entre o FGVces e a Febraban, o estudo Instituições Financeiras e Gestão do Risco do Desmatamento dá continuidade ao trabalho desenvolvido no relatório Riscos e Oportunidades Associados ao Capital Natural para o Setor Financeiro (2016), analisando as implicações da incidência física de desmatamento nas cadeias produtivas da pecuária de corte, soja, produtos madeireiros e óleo de palma para a gestão de risco das instituições financeiras.

Esta pesquisa buscou aperfeiçoar a gestão do risco de desmatamento pelos bancos por meio da recomendação de elementos de análise para concessão de crédito e o fornecimento de informações sobre ferramentas e bases de dados disponíveis para consulta, além de oferecer subsídios para que os bancos possam posicionar-se frente às demandas nacionais e internacionais relacionadas à redução do desmatamento.

Ao final, a publicação traz recomendações sobre quais elementos de análise de risco socioambiental contribuem para a redução do risco de desmatamento de seus clientes do setor agropecuário e quais elementos para coleta e análise de dados permitem consultas às bases de dados e informações necessárias para a gestão do risco. O estudo será divulgado no 1º semestre de 2018.

Além do trabalho conjunto com a Febraban, outra parceria importante do FGVces na agenda de finanças é com a ONG WWF, na organização e implementação da Iniciativa para Conservação e Mercados Financeiros (CFMI) e da Colaboração para Florestas e Agricultura (CFA).

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Em 2017, no âmbito desta parceria, o FGVces desenvolveu atividades voltadas para o engajamento e informação de atores importantes do mercado financeiro brasileiro sobre preservação e recuperação florestal, como um workshop sobre ferramentas digitais relativas a desmatamento para instituições financeiras, além da realização de um levantamento e análise crítica das principais bases de dados oficiais e ferramentas disponíveis para ajudar as instituições financeiras a gerir o risco de desmatamento na concessão de crédito às empresas das cadeias de soja e pecuária de corte.

Outra atividade importante organizada pela parceria foi o levantamento de práticas relacionadas à gestão do risco de desmatamento de instituições públicas e cooperativas e elaboração de estratégia de engajamento de médio prazo com instituições financeiras públicas de alcance regional, como o Banco da Amazônia (BASA) e o Banco do Nordeste (BNB).

Um resultado importante do trabalho do FGVces com a WWF foi o desenvolvimento da publicação Investimento Responsável e o Combate ao Desmatamento, divulgado em dezembro de 2017. O estudo pretendeu analisar, de modo sistemático, os riscos ligados a desmatamento a que estão expostas as empresas que operam no Brasil e que produzem ou adquirem soja, carne bovina, papel e celulose, além de identificar os potenciais riscos a que estão expostos os investidores institucionais que aplicam em empresas dessas cadeias e propor recomendações sobre como os investidores podem gerenciar esses riscos.

 

INFORMAÇÃO PARA GESTORES E INVESTIDORES SOBRE SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL

Desafios como os impactos do risco de desmatamento sobre empresas e investidores evidenciam uma mudança importante que vem acontecendo nos últimos anos. Se no passado a lógica para investimento se resumia tão somente à rentabilidade econômica do negócio, hoje ela não é a única referência no processo decisório de muitos investidores ao redor do mundo. Junto com o retorno financeiro, os investidores buscam cada vez mais opções de aplicação que gerem impactos positivos à sociedade, catalisando a geração de riqueza em seu entorno e, assim, influenciando positivamente o próprio desempenho econômico do negócio.

É nesse contexto que emergem iniciativas inovadoras como o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, pioneiro na América Latina, com o objetivo de criar um ambiente de investimento compatível com as demandas sociais e estimular a responsabilidade ética e socioambiental das empresas. Desde 2005, o ISE ajuda investidores, gestores empresariais, pesquisadores e cidadãos a analisar comparativamente o desempenho das empresas listadas na Bolsa sob o aspecto da sustentabilidade corporativa, baseada em eficiência econômica, equilíbrio ambiental, justiça social e governança corporativa, pautado pela transparência com relação aos diferentes stakeholders do mercado financeiro. O FGVces é parceiro técnico da B3 no desenvolvimento e revisão periódica da metodologia de seleção das empresas, além da realização do processo seletivo anual de ações para a carteira do ISE.

Evento temático 1 ISE – Foto: FGVces

Em 2017, o ISE realizou o segundo ano do ciclo longo de revisão do Questionário, a principal ferramenta do processo seletivo anual de ações para composição da carteira do Índice, quando se discutiu temas que servirão de subsídios para uma revisão mais profunda do documento em 2018. Desde 2015, a equipe do FGVces vem coletando sugestões sobre aprimoramentos possíveis e, a partir disso, realizará consultas e workshops públicos para análise e validação durante o ciclo 2018.

As contribuições para revisão do Questionário ISE se estruturam nos seguintes eixos temáticos:

  • Integração de fatores ESG à estratégia empresarial e/ou ao core business;
  • Integração de fatores ESG aos mecanismos de governança e gestão corporativa e à gestão de risco;
  • Incorporação de informações ambientais à contabilidade e ao apoio à tomada de decisão;
  • Incorporação de fatores ESG nos critérios de produção e consumo sustentáveis;
  • Integração de fatores ESG na gestão de empresas (incluindo sua cadeia de valor) sob a esfera de influência de uma companhia;
  • Efetivação da agenda de direitos humanos nas empresas;
  • Integridade e transparência nos valores, relacionamentos e cultura empresarial.

Além do trabalho no ciclo longo de revisão, o ISE também realizou ações para promoção junto a atores do mercado financeiro, com o objetivo de examinar e discutir o papel do Índice como uma referência útil e confiável para os investidores que desejam ir além das perspectivas usuais em suas decisões, ampliando sua compreensão sobre os riscos e oportunidades.

Em novembro de 2017, a B3 anunciou a 13ª carteira do ISE, que vigora entre 08/01/2018 e 04/01/2019, reunindo 33 ações de 30 companhias, representando 12 setores econômicos e somando mais de R$ 1,2 trilhão em valor de mercado. Esse montante equivalia a 41,47% do total do valor das companhias com ações negociadas na Bolsa em 21/11/2017.

Desde a sua criação, em 2005, o ISE apresentou rentabilidade de +185,01% contra +113,72% do Ibovespa (base de fechamento em 21/11/2017). No mesmo período, o ISE teve ainda menor volatilidade: 24,67% ante 27,46% do Ibovespa.

Mais uma vez, o processo de seleção da carteira 2017/2018 do ISE contou com a asseguração externa da KPMG, que confere ainda mais credibilidade e confiabilidade ao Índice. Além disso, o ISE mantém parceria de monitoramento diário de imprensa com a empresa Imagem Corporativa.

Audiência Pública ISE – Foto: FGVces

Levando em conta a transparência, uma bandeira importante do ISE, a publicação das respostas das empresas ao questionário de avaliação é pré-requisito para participação no índice. Assim, as respostas das 30 companhias selecionadas para a carteira 2018 estão disponíveis no site do ISE.

Outra iniciativa desenvolvida no âmbito do ISE em 2017 foi a criação do Diagnóstico Base ISE (DBI), um instrumento para que empresas – especialmente aquelas não listadas na Bolsa – possam conhecer melhor seu desempenho em termos de sustentabilidade, tendo como referência algumas das companhias que mais se destacam nesse campo no Brasil. A adaptação de parte das questões do documento, especialmente as direcionadas para empresas de capital aberto, foram adaptadas para empresas de capital fechado com a ajuda do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

A aplicação do DBI foi realizada pela primeira vez junto a um grupo do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), composto por cinco empresas da construção civil – Cyrela Brasil Realty, Gafisa S.A., MRV Engenharia e Participações S.A., Sinco Engenharia, e Tegra Incorporadora. Por meio de um processo preparatório específico e de um relatório baseado nos questionários preenchidos pelas empresas, a iniciativa trouxe um diagnóstico do grupo, identificando pontos fortes e desafios e sugerindo focos de atuação, além de análises mais aprofundadas sobre temas de relevância para as empresas do setor.

Mais uma iniciativa importante do FGVces no campo da sustentabilidade empresarial é o envolvimento técnico no desenvolvimento do Guia Exame de Sustentabilidade. Desde 2007, o FGVces é responsável pela metodologia de avaliação do desempenho de empresas, compreendendo um levantamento sobre compromissos, transparência e governança corporativa, além de questões sobre o desempenho da empresa sob aspectos econômico-financeiros, sociais e ambientais.

O Guia Exame de Sustentabilidade tem como objetivo identificar, avaliar e divulgar as melhores práticas socioambientais adotadas pelas companhias brasileiras e escolher, após análise, as chamadas “empresas-modelo”.

Em sua edição 2017, de 173 empresas analisadas, foram escolhidas 75, representando 19 setores econômicos. Em cada setor, a Exame selecionou uma empresa de destaque em dez temas relevantes da sustentabilidade – direitos humanos; ética e transparência; gestão da água; gestão da biodiversidade; gestão de fornecedores; gestão de resíduos; governança da sustentabilidade; mudanças climáticas (inclui gestão de energia); relação com a comunidade; e relação com clientes. Por fim, a redação da Exame selecionou uma empresa, a Natura, para receber o Prêmio de Empresa Sustentável do Ano.