Foto: FGVces

“Pensar fora da caixa”. O termo da moda na sociedade moderna reflete uma necessidade premente de construir novos caminhos e modelos para promover uma economia mais justa e sustentável, diferente daqueles que nos trouxeram para o cenário atual de desigualdade e esgotamento dos recursos naturais.

O pensar está muito ligado à forma como enxergamos a nós mesmos, ao mundo que nos rodeia e às diversas conexões diretas e indiretas entre esses dois universos, e um espaço primordial para a construção de entendimentos e reflexões é a educação. No entanto, na medida em que adquirimos consciência sobre a complexidade das diferentes realidades que nos permeiam diariamente, o modelo tradicional de formação é incapaz de prover as pessoas de um senso mínimo que as qualifique e prepare para enfrentar os desafios contemporâneos e futuros.

Para o FGVces, estando dentro de uma das maiores escolas de negócios do mundo, a formação é uma frente crucial para viabilizar uma nova economia que considere os limites naturais do planeta e as necessidades humanas fundamentais. Por isso, é uma missão do Centro trabalhar por novos modelos para a formação de cidadãos e profissionais no contexto da sustentabilidade.

FORMAÇÃO INTEGRADA PARA SUSTENTABILIDADE E OS DESAFIOS DA VIDA REAL

Quando falamos de educação, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a sala de aula e fileiras de carteiras organizadas em frente à lousa. Tão sistematizado quanto esse espaço é o sistema de ensino tradicional, que fragmenta o conhecimento em disciplinas e transmite e replica o conteúdo geral para os alunos. Entretanto, nos últimos anos, um movimento que vem tomando corpo no Brasil e no mundo questiona a lógica tradicional de formação e busca modelos inovadores. O intuito é desafiar as pessoas a ir além dos livros e das salas de aula e compreender o mundo afora em sua complexidade.

Desde 2010, a FGV EAESP está inserida nesse movimento, sendo uma das instituições de ensino pioneiras no Brasil na construção de modelos de formação inovadores e alinhados com os desafios do presente e do futuro. Uma de suas iniciativas de maior destaque é o FIS – Formação Integrada para Sustentabilidade, uma disciplina eletiva coordenada pelo FGVces para os alunos de graduação na FGV em São Paulo.

Mais do que uma simples disciplina curricular, o FIS propõe um novo processo que busca promover as condições necessárias para fazer emergir um sujeito mais consciente de si mesmo e de sua interdependência e complexidade, e mais ativo e autônomo na sua relação consigo mesmo, com os outros e com a realidade. No centro disso tudo está uma mudança fundamental de paradigma: da fragmentação para a integração. De um modelo disciplinar fragmentado e unidimensional, insuficiente para lidar com a complexidade do mundo atual, para um inter e transdisciplinar, capaz de integrar a razão formal, a experiencial e a sensível.

A cada semestre, os “fisers” (alunas e alunos da FGV que participam do FIS) trabalham em dois projetos estruturais: o Projeto Referência, que consiste em um desafio real no âmbito da sustentabilidade, que possibilita aos alunos serem protagonistas em questões relevantes da atualidade; e o Projeto de Si Mesmo, que propicia aos aprendentes um maior contato consigo mesmo e a descoberta de novas dimensões de sua interioridade, – por meio de atividades reflexivas, contemplativas, artísticas e corporais.

Seguindo essa proposta, as edições do FIS em 2017 exploraram dois temas importantes dentro da agenda da sustentabilidade: o conceito de “desertos alimentares”, regiões ou grupos sociais que sofrem com pouco ou nenhum acesso a alimentos in natura; e o pensamento de ciclo de vida aplicado à indústria da moda.

Apresentação final do FIS 14 – Foto: FGVces

No primeiro semestre, a turma 14 do FIS, denominada Oásis, foi desafiada em seu Projeto Referência a construir um mosaico digital e interativo que revelasse a situação dos desertos alimentares na cidade de São Paulo e entorno, provocando a reflexão sobre sua existência e como afetam indivíduos, relações, políticas públicas e negócios.

A relevância dessa questão é grande: a despeito de ser o terceiro maior produtor mundial de frutas, com volume de cerca de 40 milhões de toneladas produzidas ao ano, o Brasil ainda tem 1/4 de sua população ingerindo menos que a quantidade diária de frutas e hortaliças recomendada pela Organização Mundial da Saúde (400 gramas). A expansão do consumo alimentar das famílias brasileiras nas últimas décadas não significou um aumento no consumo de alimentos in natura, mas sim de comida processada industrializada, com poucos nutrientes e vitaminas.

Além de estudar como esse fenômeno acontece na cidade de São Paulo, a turma também explorou caminhos e possibilidades para que a iniciativa engajasse as pessoas no tema e apresentasse insumos que as incentivassem a refletir sobre essa questão através do mosaico digital e interativo.

O resultado final deste trabalho foi a plataforma online Desertos Alimentares, que explica de maneira lúdica e simples os elementos que contribuem para a formação desses desertos no contexto urbano, como cultura e educação alimentar, publicidade, insegurança alimentar e nutricional, a cadeia de valor de alimentos naturais e vícios alimentares, entre outros.

Já no segundo semestre, os fisers da turma Entrenós trabalharam a questão da sustentabilidade na indústria da moda. O Projeto Referência do FIS 15 propôs aos alunos criar um espaço lab de tendências e soluções para o futuro da moda baseado no conceito de pensamento de ciclo de vida de roupas. O ponto de partida desse desafio é o impacto da produção de roupas sobre o meio ambiente e a sociedade, desde a extração da matéria-prima até o uso pelo consumidor final, passando pela forma como essa produção foi operacionalizada. Isso ganha ressonância ao considerarmos a expansão da chamada fast fashion, fenômeno calcado na produção e no consumo rápido e massivo de roupas.

Cosseleção do FIS 15 – Foto: FGVces

Questões importantes ganham relevância nesse contexto. Por exemplo, o uso excessivo de água, energia e carbono para a produção de uma peça individual de roupa pode contribuir para o esgotamento desses recursos. Além disso, a forma como a mão-de-obra é tratada e operacionalizada no processo produtivo também pode trazer problemas de natureza jurídica e ética à indústria da moda.

A partir do pensamento de ciclo de vida, que analisa os impactos ambientais da produção de um bem ou serviço ao longo de sua vida útil, os fisers estudaram o setor da moda e exploraram caminhos para que essa indústria consiga incorporar essa lógica em seu processo produtivo. A pesquisa serviu de base para que a turma montasse um estande na BE Fashion Week, evento de moda sustentável que aconteceu em novembro de 2017 em São Paulo, para expor aos visitantes suas reflexões e recomendações para o setor.

Os temas trabalhados pelo FIS em 2017 provocaram reflexões em comum. Tanto a questão dos desertos alimentares (FIS 14) quanto a de moda sustentável (FIS 15) remeteram à questão do consumo e de como a escolha individual das pessoas impacta nossas relações, com efeito sobre nós mesmos, os outros e o conjunto da sociedade. Além disso, os dois setores analisados compartilham desafios similares na pauta da sustentabilidade: a indústria da moda e a de alimentos estão no foco de movimentos sociais e ambientais por conta das externalidades negativas que geram, trabalham com cadeias de valor complexas (nas quais a rastreabilidade e o preço justo são dois nós que precisam ser desatados), e representam um volume expressivo da atividade econômica do Brasil.

Para 2018, o FIS continuará trabalhando questões relevantes da agenda da sustentabilidade para a sociedade brasileira.

 

POR UM NOVO MODELO DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL

Desde 2016, a experiência de quase nove anos de trabalho com a disciplina eletiva Formação Integrada para Sustentabilidade serve como insumo e inspiração para a pós-graduação, com a estruturação da Linha de Sustentabilidade no Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade, oferecida pela FGV EAESP. Da mesma forma que o FIS, a Linha de Sustentabilidade busca desenhar e implementar modelos inovadores de educação que também partem dos eixos centrais do Projeto Referência e do Projeto de Si Mesmo, e resultem na formação de líderes, gestores e cidadãos preparados para lidar com os desafios contemporâneos.

Assim, essa Linha tem como missão criar condições necessárias para fazer emergir um sujeito mais consciente de sua integralidade como ser humano, da interdependência nas relações com os outros e com o meio ambiente, e da totalidade e complexidade da realidade em que vivemos.

Em 2017, a Linha recebeu sua 2ª turma de mestrandos, composta por 26 alunas e alunos com origens pessoais e profissionais diversas, que se soma aos 32 mestrandos da 1ª turma, iniciada no ano anterior.

Como temas de Projetos Referências, a turma 2 desenvolveu em 2017:

– Desenvolvimento de um vídeo documentário sobre inserção dos refugiados no mercado de trabalho;

– Desenvolvimento de uma intervenção corporativa baseada em princípios do psicodrama para revelar o viés inconsciente de gênero nas organizações

– Criação de instrumentos (uma pesquisa, uma revista digital e um artigo acadêmico) com princípios a serem considerados pelo setor publicitário para a promoção do desenvolvimento sustentável;

– Formação de uma coalizão para atuar com diversidade étnico-racial no ambiente universitário (caso FGV).

Virada das Nações Unidas – Foto: FGVces

Além das disciplinas e das viagens de imersão em campo, uma etapa importante do processo formativo do Mestrado nesse ano foi a realização da 2ª edição da Virada das Nações Unidas, uma disciplina especial que simula o processo de negociação internacional sobre desenvolvimento sustentável no âmbito da Organização das Nações Unidas. A Virada permitiu aos participantes vivenciar por um dia a complexidade das negociações, debatendo e negociando sobre os principais desafios globais da sustentabilidade, em temas relacionais aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Em 2018, terão início as atividades da 3ª turma da Linha de Sustentabilidade do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade. Além disso, os mestrandos da 1ª turma deverão realizar suas bancas de defesa de suas dissertações ao longo desse ano, concluindo o processo formativo.

DEPOIMENTOS

Eu digo que sou irreconhecível hoje, desde o meu temperamento até o meu conhecimento técnico. Agradeço pela oportunidade de fazer esse Mestrado. Realmente mudou a forma como eu vejo e como vivo as coisas, e isso não tem dinheiro que pague, não tem tempo que resolva. Isso é mágico.

Carolina Jungmann, aluna da turma 1 (T1) do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade: Linha Sustentabilidade

Eu estou adorando o Mestrado. Ele tem me surpreendido muito, principalmente porque cuida não só do conteúdo que traz, mas também da forma como traz – a forma que a gente aprende, que a gente interage, que a gente dialoga. Ele trabalha a escuta, e para mim isso é fundamental. Se a gente quiser olhar para a sustentabilidade de verdade, a gente tem de contemplar essas outras dimensões.

Mariana Rico, aluna da turma 2 (T2) do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade: Linha Sustentabilidade

O FIS nos aproximou de uma nova leitura de mundo, a partir de um processo no qual despertamos nossa sensibilidade para compreender a realidade em seus diferentes níveis, questionando e percebendo nossas relações, mergulhando em uma experiência única. Diferente da maioria das disciplinas na graduação, nos é proposto um desafio real e complexo. Revisitamos nossas relações cotidianas com nós mesmos, com o outro e com o planeta. Integramos conhecimentos e ferramentas que normalmente estão separados na grade curricular. Passamos a entender a interdependência entre indivíduos, coletivos e sustentabilidade. Conhecemos conceitos importantes de transdisciplinaridade que transformam a maneira como lidamos com o nosso entorno e como lidaremos com as nossas futuras decisões enquanto gestores públicos ou privados. Visitamos lugares incríveis. Fizemos amizades. Dialogamos, discutimos, demos risada, choramos e acolhemos uns aos outros. Nunca antes na sala de aula eu havia estabelecido relações tão fortes.

Isabella Cruvinel Santiago, graduanda em Administração de Empresas na FGV EAESP e aluna da turma “Oásis” da disciplina eletiva Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS 14)