Foto: FGVces

A sustentabilidade desafia as empresas a se repensar, de forma estrutural, como poucas vezes na história econômica. Operar pelo modelo tradicional, que explora desenfreadamente os recursos naturais, que olha apenas para o lucro de seus acionistas e gestores e que não considera o bem-estar daqueles que são impactados pelo seu negócio está se tornando cada vez mais difícil, arriscado e problemático. As pressões por uma transformação substancial no ambiente empresarial crescem na mesma medida em que os desafios contemporâneos – como escassez hídrica, perda da diversidade biológica, desmatamento, mudança do clima e extrema pobreza – ganham magnitude.
Para que essa transformação ocorra nas empresas –, de maneira que estas se tornem atores efetivos na construção de uma economia capaz de atender às necessidades humanas em sintonia com a capacidade da natureza em prover e repor seus recursos –, devemos ir além da inovação incremental: a forma de gerir, o modelo de negócios, o processo de produção e a oferta de bens e serviços também exigem mudanças profundas.

Para o FGVces, a sustentabilidade oferece o caminho mais adequado para que as empresas se repensem e se transformem em atores estratégicos na construção de uma nova economia. Por essa razão, desde a sua fundação, o Centro trabalha com empresas dos mais diferentes portes e setores no sentido de criar um ambiente propício para o engajamento e a articulação interna e externa dessas organizações, produzindo conhecimento e desenvolvendo ferramentas para orientar gestores, empresários, consumidores e investidores.

 

SUSTENTABILIDADE NAS CADEIAS DE VALOR

Com o crescimento da responsabilidade das empresas quanto a suas contribuições para a responsabilidade social corporativa e, mais recentemente, para a sustentabilidade, uma parcela crescente de stakeholders tem pressionado as organizações a gerenciar de modo mais adequado e efetivo os impactos econômicos, sociais e ambientais relativos à sua operação dentro de suas esferas de influência. Questões como riscos à saúde e segurança, aumento da pobreza e da exclusão social, violação de direitos humanos básicos e a corrupção fazem parte do vocabulário de gestores e administradores de empresas no País.

Essa preocupação desafia as empresas a ir além da sua própria operação, a olhar para seus fornecedores. A partir de sua política e prática de compras, a empresa pode gerenciar riscos e oportunidades relacionados à cadeia de valor, pois uma falha em um de seus elos pode comprometer significativamente o desempenho e a reputação da organização, seja pública, seja privada.

Foto: FGVces

Assim, as compras corporativas estão adquirindo um peso significativo enquanto catalisador de valores e práticas de sustentabilidade nas cadeias de valor associadas a essas empresas. Isso traz oportunidades importantes de geração de valor, gestão de riscos e regulações socioambientais, diálogo entre compradores e fornecedores, e de promoção de inovações disruptivas.

Desde 2012, a Iniciativa Empresarial do FGVces Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV) busca olhar para o potencial das compras sustentáveis pelas empresas, por meio da cocriação de conhecimento e metodologias para a incorporação de atributos de sustentabilidade na gestão de fornecedores. Por meio do Grupo de Trabalho (GT) de Gestão de Fornecedores, a ISCV avançou na construção de diversas ferramentas nos últimos anos, como o Framework de Compras Sustentáveis (que ajuda as empresas a delinear a abrangência e o escopo da integração da sustentabilidade aos processos de compra) e os protocolos para instrumentalização das compras sustentáveis, respectivamente sobre os temas Matriz de Risco e Análise de Materialidade na Cadeia de Fornecedores.

Em 2017, a Iniciativa deu continuidade aos trabalhos referentes ao Framework, tendo como foco a integração de diretrizes e princípios da norma ISO 20400 – Compras Sustentáveis. Outra frente de trabalho de ISCV foi o desenvolvimento de projetos-piloto para aplicação do protocolo de Matriz de Risco, em parceria com as empresas membro.

O trabalho relativo ao Framework continuará a ser feito no ciclo 2018 da Iniciativa por meio de duas frentes: a continuidade no esforço de integração de diretrizes e princípios da norma ISO 20400, e a elaboração de um protocolo de desenvolvimento de fornecedores. Ao mesmo tempo, o acompanhamento da implementação dos protocolos por meio dos projetos piloto também será realizado no próximo ciclo.

 

VALORAÇÃO DE SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS

A lógica tradicional de exploração dos recursos naturais, que fundamentou o processo de industrialização a partir do século XIX, nunca esteve tão inviável como agora. A escassez virou uma variável importante para a economia: mesmo os recursos abundantes podem se tornar escassos, dependendo das circunstâncias de distribuição e acesso. O Fórum Econômico Mundial lista, no Relatório de Riscos Globais 2018, a perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas entre os principais riscos para a economia mundial.

A perenidade da empresa depende cada vez mais da garantia de que a natureza continue tendo condições para prestar serviços ecossistêmicos importantes, como a polinização e a disponibilidade de água em quantidade e qualidade. Esse novo cenário pressiona gestores e empresários a entenderem de maneira aprofundada as relações de dependência e de impacto entre seus negócios e os ecossistemas naturais nos quais as empresas estão inseridas. Ignorar a forma como a natureza contribui para a sua operação pode inviabilizar o negócio no longo prazo, enquanto que o engajamento no tema pode ser uma oportunidade de transformar o modelo de negócios.

Um caminho para incluir o capital natural na lógica do negócio é a sua valoração econômica e não-econômica, que permite tangibilizar a importância dos serviços ecossistêmicos para a atividade produtiva. Para ajudar as empresas brasileiras a trilhar esse caminho, a Iniciativa Empresarial do FGVces Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) tem desenvolvido estratégias e ferramentas destinadas à gestão empresarial de impactos, dependências, riscos e oportunidades relacionados a serviços ecossistêmicos, orientando as organizações a incorporar essas questões em sua estratégia de negócio e em seu processo decisório. Desde 2013, a TeSE capacita empresas em metodologias de valoração e as articula para trocar experiências e boas práticas de avaliação e gestão de serviços ecossistêmicos.

Em 2017, a TeSE trabalhou em suas oficinas instrumentos de gestão empresarial de serviços ecossistêmicos, abordando regulações e auto regulações no tema, a inserção dos serviços ecossistêmicos na contabilidade pública e empresarial, e o retorno sobre investimento de projetos socioambientais. Além das oficinas temáticas, a equipe do FGVces também realizou capacitações técnicas sobre gestão e valoração de serviços ecossistêmicos e acompanhou e apoiou o desenvolvimento de projetos de valoração e relato de serviços ecossistêmicos, com base nas Diretrizes Empresariais para Valoração Econômica de Serviços Ecossistêmicos (DEVESE), para Valoração não Econômica de Serviços Ecossistêmicos Culturais (DESEC), e para Relato de Externalidades Ambientais (DEREA).

Além das atividades de disseminação de conceitos e métodos, a TeSE também divulgou oito casos de valoração e dois casos de gestão empresarial de serviços ecossistêmicos conduzidos durante o ciclo 2016 por suas empresas membro. O trabalho foi desenvolvido em parceria com o Projeto “TEEB Regional-Local: Conservação da Biodiversidade através da Integração dos Serviços Ecossistêmicos em Políticas Públicas e na Atuação Empresarial”, uma realização da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Confederação Nacional da Indústria (CNI) no contexto da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável.

Para o ciclo 2018, a TeSE explorará alguns desafios práticos para a incorporação do capital natural na gestão empresarial, sendo eles as conexões entre serviços ecossistêmicos e a estratégia do negócio, a relação entre análise de ciclo de vida e a valoração de serviços ecossistêmicos, e mercados de ativos ambientais e finanças da conservação. Além disso, as empresas-membro continuarão desenvolvendo projetos de valoração de serviços ecossistêmicos a partir da aplicação das Diretrizes desenvolvidas pela Iniciativa.

 

CICLO DE VIDA DE PRODUTOS

Para que uma empresa tenha a visão efetiva dos efeitos dos bens e serviços produzidos sobre o meio ambiente e a sociedade, é preciso extrapolar os limites de sua operação e olhar para toda a cadeia de valor, incorporando a visão do produto e deixando de lado o antigo conceito de “meu” produto. Da extração da matéria-prima necessária no processo produtivo, passando pela montagem, distribuição e venda e indo até o uso e o descarte pelo consumidor final, o produto e seus componentes passam por diversas empresas e carrega diversos impactos gerados ao longo de sua vida útil, ou seja, até que deixe de desempenhar a função original ou que ganhe uma nova finalidade.

Nos últimos anos, consumidores individuais e institucionais, nas esferas pública e privada, em diversas partes do mundo, começaram a questionar as empresas sobre o impacto real dos produtos na natureza e a demandar opções mais eficientes e com menor efeito negativo sobre o planeta. Entretanto, as dificuldades técnicas para fazer essa estimativa são grandes, principalmente em se tratando de empresas de menor porte de economias menos desenvolvidas.

Uma ferramenta que vem ganhando relevância nos últimos anos é a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), que permite identificar e quantificar os potenciais impactos ambientais ao longo do ciclo de vida de um produto, desde a primeira interação com o meio natural (como na extração de matéria-prima) até o fim de vida. Dessa forma, em vez de limitar o foco nas operações apenas dentro da empresa, a ACV proporciona uma visão completa e abrangente de todos os elos da cadeia produtiva, envolvendo fornecedores (primários, secundários e até outros distantes de suas operações), clientes e usuários na busca pela redução de impactos, incentivando ciclos de inovação de produtos e serviços.

Capacitação em Pegada de Carbono – Foto: FGVces

Para apoiar as empresas brasileiras no conhecimento e no uso desta ferramenta, o FGVces criou em 2015 a Iniciativa Empresarial Ciclo de Vida Aplicado (CiViA), voltada para desenvolver a ACV e disseminar seus conceitos no País. O principal objetivo da CiViA é trazer o pensamento de ciclo de vida para as organizações brasileiras, capacitando-as a quantificar as pegadas de seus produtos e fomentando a terem essa visão mais completa e abrangente, promovendo a gestão a partir dos conceitos de ciclo de vida. A chamada Gestão de Ciclo de Vida (GCV) utiliza-se de resultados de estudos de ACV para a construção de estratégias, metas e planos de gestão em sustentabilidade e pode ajudar as empresas na busca por produtos ambientalmente menos impactantes. Um dos ganhos desta abordagem é o foco no produto e não nas atividades de uma ou outra empresa, resultando em maior integração e na construção de parcerias que podem gerar resultados positivos em diversas etapas e atividades ao longo da vida de um bem ou serviço.

Durante seu 3º ciclo de atividades, a CiViA continuou apoiando as empresas- membro na elaboração de estudos de ACV sobre produtos em 2017, com foco nas categorias de impacto ambiental “mudança do clima”, através da pegada de carbono, e “escassez hídrica”, por meio da pegada hídrica. Nesta segunda categoria, realizada no contexto da Agenda Integrada das Iniciativas Empresariais do FGVces sobre gestão empresarial de recursos hídricos, a CiViA foi pioneira na aplicação do método “AWaRe” (Available Water Remaining), lançado em dezembro de 2016 pela WULCA (Water Use in LCA), para avaliar os impactos do consumo de água baseado na disponibilidade hídrica local e nos seus múltiplos usuários.

Além do trabalho técnico com as empresas, a CiViA também promoveu oficinas temáticas para discutir questões relevantes na agenda de ciclo de vida. Na primeira oficina, as empresas discutiram sobre rótulos e declarações ambientais, baseada na série ISO 14020, que trata de rotulagem ambiental de produtos, e sobre as vantagens e desvantagens de utilizá-las na comunicação para o público externo.

Em 2017, a CiViA também lançou a publicação Experiências e Reflexões sobre a Gestão do Ciclo de Vida de Produtos nas Empresas Brasileiras, que apresenta a abordagem do ciclo de vida e a técnica da ACV, suas aplicações e conexões com outros temas relevantes, ilustradas com diversos casos reais de empresas participantes da Iniciativa e explorando as potencialidades de interação de ACV com outras áreas. Além disso, a publicação também traz um panorama do trabalho desenvolvido pela CiViA desde sua criação, em 2015.

Foto: FGVces

Ainda em 2017, a Iniciativa continuou seu trabalho de articulação e disseminação de conhecimento em nível internacional, com a apresentação de trabalhos em eventos no exterior, como o congresso europeu de ACV, o Life Cycle Management (considerado o evento mais relevante no campo da ACV em todo o mundo). Os trabalhos foram desenvolvidos pela equipe do FGVces junto com quatro empresas membro (Copel, Duratex, JBS, e Odebrecht Agroindustrial), que puderam divulgar os avanços da agenda brasileira de ACV, despertando o interesse de stakeholders internacionais.

Para 2018, a CiViA pretende avançar na agenda de pensamento de ciclo de vida e trabalhar com projetos-piloto de ACV “completa”, que contempla diversas categorias de impacto ambiental. Além da parte técnica, a abordagem focará as diversas aplicações da ACV no contexto empresarial, relacionando com a gestão do ciclo de vida de produtos. Assim, junto com as capacitações específicas em pegada de carbono e pegada hídrica, a equipe do FGVces também apoiará as empresas na transição de estudos de categoria única (como vinha sendo feito até 2017) para um estudo completo de ACV, oferecendo uma nova capacitação específica para o tema. Além da ACV completa, a CiViA também realizará oficinas interdisciplinares com outras iniciativas do GVces que explorarão temas como a relação entre ACV e a valoração de serviços ecossistêmicos (em parceria com a TeSE) e as conexões entre precificação de carbono, inventários corporativos e pegada de carbono (em parceria com a EPC e a Simulação do Comércio de Emissões – SCE).

DEPOIMENTOS

Participar da TeSE em 2017 foi muito enriquecedor para a gestão ambiental da organização e para minha formação em particular. As oficinas com a apresentação de cases serviram como inspiração para desenvolver novos projetos na organização bem como analisar criticamente o que está sendo feito nas empresas de hidroeletricidade, bem como nas áreas de construção civil e desenvolvimento urbano. A interação com os demais participantes também foi fundamental para realizar uma análise da nossa gestão, como ela pode evoluir e estabelecer network efetivo.

Cinthia Martins, Grupo Toctao

O ano de 2017 consolidou uma primeira e importante etapa rumo à gestão do ciclo de vida nas empresas brasileiras, iniciada em 2015: a construção das bases de conhecimento técnico que permitirão a implementação da ACV. Como o próprio nome da iniciativa, queremos que o pensamento de ciclo de vida seja efetivamente aplicado no contexto empresarial brasileiro, expandindo os horizontes da gestão em sustentabilidade para muito além das fronteiras da organização. Agora estamos prontos para dar o próximo passo em 2018, explorando as diversas facetas da ACV.

Beatriz Kiss, gestora da CiViA e pesquisadora do FGVces