Foto: Schwoaze

Na busca de soluções para os problemas complexos que a sociedade contemporânea enfrenta, o empreendedorismo é um caminho importante para o desenvolvimento de produtos e serviços inovadores. Isso porque, para se distinguir em meio a um universo amplo de organizações, as empresas de pequeno porte muitas vezes aproveitam sua estrutura mais simples e ágil para servirem como celeiros de inovação e ganhar destaque no mercado.

Essa capacidade de desenvolver inovação desde o nascedouro distingue os pequenos negócios e evidencia sua importância dentro da economia como um todo, especialmente no contexto das demandas da sustentabilidade. No entanto, empreender não é uma tarefa fácil, principalmente no Brasil: questões estruturais e operacionais dificultam a vida de empreendedores em todos os setores econômicos do País, desde a agricultura familiar até micro e pequenas empresas voltadas para o mercado externo.

Para preencher essa lacuna e incentivar a inovação voltada para a sustentabilidade, o FGVces procura apoiar pequenos empreendedores com informação, orientação e articulação, de maneira a fortalecer um ecossistema de inovação e empreendedorismo no Brasil.

INCLUSÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR NA CADEIA DE ALIMENTOS EM GRANDES CENTROS URBANOS

Toda comida tem uma história e uma trajetória. Para chegar à mesa, por exemplo, a alface da nossa salada passa por muitos elos, que vão desde o plantio, o manejo e a colheita do pé de alface pelo produtor ao transporte e à distribuição nas gôndolas dos supermercados ou as bancas das feiras de rua. Em cada elo, determinado ator desempenha um papel importante para que possamos ter nossa salada completa nas refeições.

Um protagonista na produção de alimentos é o agricultor familiar. De acordo com o Censo Agropecuário de 2006, 84% dos estabelecimentos agropecuários do País são familiares. Para termos uma ideia da importância da agricultura familiar, quase 90% da mandioca, 70% do feijão e 65% das hortaliças consumidas no País são produzidas por produtores rurais familiares.

No entanto, a importância da agricultura em pequena escala não garante vida fácil no mercado brasileiro: esses agricultores enfrentam desde riscos climáticos, que afetam a produção, até problemas na distribuição de seus produtos e no recebimento do pagamento, que os colocam em uma condição que afeta diretamente sua qualidade de vida e coloca em risco a viabilidade de seu negócio.

Nesse ambiente desafiador para a agricultura familiar, a comercialização desponta como uma questão que merece atenção especial. Inspirado por essa percepção, em 2015 o FGVces se uniu ao Citi, com apoio da Citi Foundation, para criar o projeto Bota na Mesa, que tem como objetivo promover a inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos de grandes centros urbanos, fomentando o comércio justo, a conservação ambiental e a segurança alimentar e nutricional.

Foto: Ricardo Lisboa/Yantra Imagens

Em 2017, o projeto concluiu seu 2º ciclo de atividades, iniciado no ano anterior. O trabalho se deu em duas frentes principais:

  • Co-formação com cooperativas de pequenos produtores rurais para apoiá-los no acesso a mercados por meio da implementação de planos de ação construídos no 1o ciclo do projeto; e
  • Articulação de uma rede de atores da cadeia de fornecimento de alimentos, composta por entidades do setor público ligadas ao tema, centrais de abastecimento, redes varejistas, canais alternativos e organizações da sociedade civil, com o objetivo de discutir os desafios da cadeia no contexto do pequeno agricultor e de promover a construção conjunta de soluções.

Ao longo de 2017, a equipe do FGVces apoiou e acompanhou a implementação dos planos de ação construídos coletivamente no 1º ciclo do projeto (2015-2016), para que cada uma das organizações participantes pudessem acessar o canal de comercialização de seu interesse.

Para tanto, o Bota na Mesa realizou três oficinas com representantes de cada uma das organizações participantes: uma sobre gestão financeira, para fortalecer as cooperativas nas negociações e vendas junto aos canais de comercialização; outra voltada para o desenvolvimento de um plano de comunicação; e outra para avaliação final do projeto. Além das oficinas de capacitação, a equipe do FGVces realizou visitas a campo para acompanhar a evolução das cooperativas.

Um destaque na agenda do Bota na Mesa em 2017 aconteceu durante o 3º encontro integrador do projeto, em agosto, quando as cooperativas e associações participantes foram convidadas a comercializar em um espaço na FGV EAESP em formato de feira livre.

Para muitos dos participantes, o contato direto com o consumidor final foi uma novidade, já que a venda acontece geralmente por intermediários. A experiência da feira serviu como inspiração para que esses produtores vislumbrassem formas alternativas de comercialização e de valorização de seus produtos junto ao consumidor final.

Para o público da FGV, composto principalmente por alunos, professores e funcionários, a experiência também foi muito positiva, pois tiveram contato direto – muitos pela primeira vez – com aqueles que produzem alimentos básicos de sua rotina.

Os resultados dos dois primeiros ciclos de atividades do Bota na Mesa foram sistematizados e apresentados em duas publicações lançadas pelo FGVces em 2017: Bota na Mesa – Ciclo 1 em Revista e Bota na Mesa – Agricultura Familiar e o Abastecimento de Grandes Centros Urbanos.

Para o 3º ciclo do projeto, iniciado no final de 2017, o FGVces propõe mobilizar uma ampla rede de atores, como agricultores, varejistas, indústrias, governos, organizações da sociedade civil, financiadores e consumidores, com o objetivo de construir e disseminar diretrizes públicas e empresariais para a inclusão de agricultores familiares na cadeia de alimentos.

Neste novo ciclo, o trabalho se dará a partir de quatro fases:

  • Mobilização e definição de temas prioritários para inclusão da agricultura familiar na cadeia de alimentos, que já se concretizou em dezembro de 2017;
  • Construção de diretrizes a partir de grupos de trabalho multistakeholder, que está em curso por meio de encontros de Grupos de Trabalho nos temas priorizados;
  • Chamada de casos de inovação, com objetivo de identificar e selecionar casos de inovação na cadeia de alimentos, que possam trazer insumos para a construção das diretrizes; e
  • Internalização de soluções, com a realização de pilotos de implementação das diretrizes junto a organizações parceiras e a divulgação de casos de sucesso.
Feira Bota na Mesa – Foto: Ricardo Lisboa/Yantra Imagens

INOVAR PARA EXPORTAR: SUSTENTABILIDADE E INTERNACIONALIZAÇÃO DE MICRO E PEQUENAS EMPRESAS

Para uma parcela substancial das empresas brasileiras, o mercado externo é uma realidade distante de seus negócios. Pouca ou nenhuma experiência em exportação e importação, falta de conhecimento sobre potenciais mercados externos, dificuldades burocráticas e baixa competitividade internacional são alguns dos obstáculos que nossas empresas enfrentam na hora de comercializar com outros países. Tudo isso se reflete na balança comercial do País, com alguns poucos setores, particularmente exportadores de commodities, concentrando grande volume do comércio exterior nacional.

Assim, existe um grande potencial inexplorado no universo empresarial brasileiro no que diz respeito ao comércio exterior, particularmente entre micro e pequenos empreendimentos. Esse tipo de empresa, que concentra menos de 1% do total das exportações do País, possui condições para desenvolver e produzir bens e serviços com atributos de inovação e sustentabilidade demandados por mercados consumidores em centros econômicos importante do mundo, como a Europa e os Estados Unidos.

Lançamento da publicação “Do Brasil para o mundo: inovação e sustentabilidade nas cadeias globais de valor” – Foto: FGVces

O projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global) busca apoiar pequenas empresas brasileiras a aproveitar diferenciais de inovação e sustentabilidade para competir no mercado internacional. Criado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e pelo FGVces em 2015, o projeto visa criar um novo modelo de exportação que destaque o Brasil como um celeiro de oportunidades para quem busca estabelecer parcerias e práticas sustentáveis a partir da inserção de micro e pequenas empresas (MPE) no mercado internacional por meio de produtos e serviços com atributos inovadores e sustentáveis.

Em 2017, o projeto ICV Global concluiu seu 2º ciclo de atividades (2016-2017) tanto na frente de co-formação de MPE integrantes quanto na de capacitação de empresas-âncora e suas cadeias de valor.

O trabalho com as 30 MPE integrantes do ciclo 2 do projeto foi concluído no começo do segundo semestre de 2017, com a realização de uma rodada de negócios organizada pela Apex-Brasil, a Brazilian Sustainable Solutions. Nessa ocasião, as empresas participantes tiveram a oportunidade de estabelecer contato e negociar propostas comerciais com compradores de nove países – África do Sul, China, Colômbia, Estados Unidos, Israel, Letônia, México e Nigéria – além de trading companies brasileiras e internacionais.

Junto com a rodada de negócios, as empresas integrantes de ICV Global puderam participar de mais uma missão comercial internacional da Apex-Brasil, dessa vez para o Vale do Silício, na Califórnia (Estados Unidos), em maio de 2017. Durante uma semana, representantes de 10 das MPE envolvidas do projeto tiveram a oportunidade de participar de mentoria no Google, de visitar a Universidade da Califórnia em Berkeley e a Universidade Stanford, além de conversar com empresários e investidores sobre temas como venture capital para empresas verdes, empreendedorismo feminino e sustentabilidade urbana.

Já na frente de engajamento de empresas-âncora, duas grandes empresas, a Duratex e a Vicunha, foram convidadas a participar de um processo de formação em sustentabilidade voltado para as pequenas e médias empresas presentes em suas cadeias de valor. O objetivo desta etapa foi contribuir para a consolidação dessas organizações nos mercados internacionais e possibilitar seu posicionamento como indutoras de práticas sustentáveis em suas cadeias.

O 2º ciclo de ICV Global foi concluído em agosto de 2017, com o lançamento da publicação Do Brasil para o mundo: inovação e sustentabilidade nas cadeias globais de valor, que destaca os resultados e as reflexões realizadas pelas equipes do FGVces e Apex-Brasil e pelas MPE participantes durante os dois anos de trabalho. A publicação, lançada em um evento especial na FGV EAESP, contou com a participação de representantes das empresas integrantes do ciclo, que puderam expor e vender seus produtos e serviços ao público presente.

Um novo ciclo de atividades do projeto ICV Global será iniciado ao longo de 2018, com um novo grupo de MPE e com atividades previstas em cidades como São Paulo, Recife e Brasília.

Foto: FGVces

DEPOIMENTOS

Promover a sustentabilidade em cadeias de valor é um objetivo sempre presente na parceria de mais de cinco anos entre a Citi Foundation e o FGVces. O apoio para que o micro empreendedorismo se desenvolva sobre bases sustentáveis e para que o relacionamento com grandes organizações se dê de forma justa é fundamental para o progresso socioeconômico de nosso país. Por meio do programa Bota na Mesa, organizações de agricultores familiares de São Paulo e entorno têm tido a possibilidade de participar de um ambiente de inovação e interação essencial para que seus negócios prosperem, sua renda se eleve e isso reflita em melhor qualidade de vida. Os resultados do Bota na Mesa mostram ser possível o estabelecimento de relações “ganha-ganha” e indicam os caminhos para que isso ocorra.

Priscilla Cortezze, Superintendente de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade do Citi Brasil, sobre o projeto Bota na Mesa

Vejo este 2º ciclo [do projeto ICV Global] como uma evolução do trabalho que começamos em 2014, aliando inovação, sustentabilidade e micro e pequenas empresas. Os empreendedores brasileiros precisam saber que há mercado lá fora, mas para quem está preparado.

Christiano Braga, Gerente de Exportação da Apex-Brasil, sobre o projeto ICV Global

O Programa ICV Global nos permitiu uma visão ampla sobre todo processo que envolve a internacionalização da empresa, foram muito valiosos os conhecimentos adquiridos e as relações que criamos com a Apex, FGV, outros empresários e parceiros. Esse programa precisa ser ampliado para que chegue a um número maior de empresas. No nosso caso, entre outros ganhos, podemos destacar que a iniciativa nos auxiliou a estruturar as ideias do modelo de negócio e preparar para negociações com pessoas de diferentes países e crenças.

André Siqueira, da Piscis, empresa participante do 2º ciclo do Projeto ICV Global